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(texto de José Antonio Ramalho - Ícaro -
Abril/Maio 2007)
Não permita que o avanço da tecnologia sem
fio deixe você conectado o tempo todo.
Seu vôo está agradável, e você
está aproveitando o tempo para ler este exemplar de Ícaro.
Mas gostaria que você confessasse: não vê a hora de
o avião aterrissar para ligar seu celular e verificar as novas
mensagens de voz? Você só está lendo esta matéria
porque a bateria do notebook acabou e você não pode continuar
trabalhando? E ainda mais, se você possui um dispositivo que permite
receber e-mails, como um PDA ou celular, está desesperado para
checar se existem novas mensagens de texto?
Se você se enquadra em algumas dessas situações, cuidado!
Você é um sério candidato a sofrer de tecnostress,
o efeito colateral inesperado que a maioria dos equipamentos eletrônicos
criados para simplificar ou tornar nossa vida mais agradável está
produzindo nas pessoas.
Em meados da década de 1990, Bill Gates predizia que a tecnologia
iria tornar as pessoas mais produtivas e, como conseqüência,
teriam mais tempo para se dedicar ao lazer e ao convívio com a
família.Gates não estava errado quanto à produtividade,
mas certamente não previu alguns fatores que acabaram tornando
computadores e outros dispositivos eletrônicos verdadeiros algozes
de seus usuários.
Mais produtividade significa que menos pessoas podem fazer o mesmo trabalho.
Globalização significa que, profissionalmente, você
não vive mais apenas no seu fuso horário. Por exemplo: você
ainda não foi convocado para uma teleconferência via satélite
de madrugada?
O impacto direto desses fatores são: o aumento da carga de trabalho
e da quantidade de informação a ser administrada e a conseqüente
diminuição do tempo para realizar todas as tarefas.
O resultado é o stress, resposta fisiológica, psicológica
e comportamental de quem tenta se adaptar às pressões internas
e externas, só que agora turbinado pela tecnologia- por isso, rebatizado
de tecnostress.
Não é o caso aqui de discutir as características
do stress, mas alguns dos fatores que a tecnologia adicionou à
formação do stress.
Não é frustrante quando e-mails, chamadas, mensagens telefônicas
e por fax chegam em quantidade maior do que a nossa capacidade de lidar
com eles? Até dez anos atrás, era possível, para
a maioria de nós, limitar a alimentação do stress
à nossa presença no escritório.O máximo que
poderia acontecer era a ligação de algum "estressado"
do escritório para o telefone de casa.
A malvada mobilidade
A culpa não é da tecnologia, que foi criada
com boa intenção. Como o telefone celular, que permitiu
às pessoas falarem e serem encontradas em qualquer lugar. Ou o
notebook, que possibilitou trabalhar durante as viagens.Ou ainda o Blackberry,
que iniciou a onda de receber e-mails em qualquer lugar.
Ótimo, não? Nem tanto. Libertados dos fios, os gadgets eletrônicos
eliminaram a dimensão física e presencial da nossa vida
profissional.
Sem perceber, as pessoas foram se deixando levar pelas facilidades que
a mobilidade trouxe e que criaram uma verdadeira dependência desses
dispositivos, o que pode ser tão nocivo quanto a dependência
química ou alcoólica.
Sem fios, mas preso
Liderando o lado negro da tecnologia, um autêntico
Darth Vander, está o e-mail. Estudos revelam que executivos e profissionais
estão absolutamente dependentes de abrir suas caixas postais em
intervalos cada vez mais curtos. A impossibilidade de checar a caixa de
entrada aumenta a ansiedade e altera o estado de espírito dessas
pessoas.
Como o e-mail se tornou a principal forma de conversação
entre a maioria dos profissionais, ter acesso às mensagens se torna
mais importante do que usar o telefone ou conversar pessoalmente. É
fácil, é rápido, e o custo é praticamente
zero.
O notebook iniciou a era do acesso remoto, móvel, ao e-mail. Mas
ainda apresenta limitações, porque não se pode carregá-lo
para todos os lugares e ele ainda depende da existência de uma linha
telefônica ou rede Wi-fi, sem fios.
Já o celular você leva para todos os lugares, cabe no bolso,
pode ser usado no carro ou ônibus a qualquer hora e luar onde haja
cobertura. O grande impulsionador dessa nova febre é um dispositivo
chamado Blackberry, um celular que dispõe de serviço de
acesso a e-mails de forma automática. O próprio aparelho
se encarrega de baixar as mensagens assim que elas chegam à caixa
postal. Esse método, chamado de push-mail, difere dos PDAs- computadores
de bolso- e dos celulares convencionais, que exigem que exige que você
ordene a leitura dos e-mails no seu servidor. A febre do blackberry e
similares ainda está longe de atingir o seu auge, mas causa preocupação.
Um vôo que fiz de São Paulo a Recife com alguns executivos
que iriam participar de um evento que mostrou a dimensão exata
dessa dependência.Ao ouvir a comissária dizer que era possível
ligar aparelhos eletrônicos, um deles sacou seu dispositivo do bolso,
que funciona com o módulo de celular desativado, e iniciou a leitura
de centenas de mensagens que lhe tomaram o restante do tempo de vôo.
Chegando a terra e podendo ligar o celular, imediatamente disparou as
respostas que havia redigido no avião e passou todo o percurso
entre o aeroporto e o hotel de Porto de Galinhas lendo novas mensagens.
Durante os três dias do evento, pude vê-lo diversas vezes,
nunca longe do seu algoz eletrônico, nem mesmo na piscina. O mais
curioso era sua aparente felicidade de poder estar conectado em tempo
integral. Para ele, o conceito de qualidade de vida e lazer certamente
ganhou outra visão.
Pois bem, se você já chegou a este ponto, cuidado! Os reflexos
disso aparecerão em sua vida pessoal. Seu comportamento familiar
vai mudar, para pior. Mas tudo bem, quando estiver sentado na sala de
estar, você pode mandar um e-mail do seu celular para o seu filho,
que está na Internet há várias horas no seu quarto,
e convidá-lo para um bate-papo. Não, não me refiro
a um Chat, mas a uma conversa frente a frente, ou até para um antiquado
hábito como jogar bola ou andar de bicicleta. Talvez a resposta
venha numa mensagem SMS no celular, dizendo que não vai dar, pois
ele vai jogar futebol com um amigo no Second Life, um mundo virtual da
Internet.
Ainda há tempo. Você pode usar a tecnologia para o bem ou
para o mal. Ser Darth Vader ou Obi-Wan é apenas uma questão
de como usar o sabre a laser ou o celular.
Um abraço,
Andreia Moreno
Educadora e Coach Pessoal de Vida
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